‘Past Lives’ traz a complexidade das relações e o amor genuíno entre duas pessoas; leia crítica sobre o novo filme da A24

'Past Lives'

Há uma palavra em coreano que traduz o significado de destino. In-Yun. Uma sentença pequena que dentro de si carrega o infinito novelo das relações, um longo fio que se estica, entrelaça e nos amarra a algumas pessoas como se a elas estivéssemos ligadas a uns 8.000 anos, nossos caminhos sendo cruzados em 8.000 vidas diferentes. Reencarnação e reencontros que ultrapassam tempo-espaço.

É baseado nesse princípio que Past Lives constrói sua narrativa. Lançado no Brasil em agosto desse ano, pelo estúdio A24, o filme marca a estreia de Celine Song como diretora de forma poética, serena e devastadora.

A história nos conduz à Coreia do Sul, onde acompanhamos os amigos Nora (Greta Lee) e Hae Sung (Teo Yoo), que possuem uma ligação única. Entretanto, a relação deles é bruscamente interrompida quando Nora se muda para o Canadá com a família e os dois perdem o contato por muitos anos.

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Nora e Hae Sung seguem caminhos opostos e perdem o contato na infância. Foto: Reprodução/Past Lives/A24

Eles se encontram nas redes sociais já adultos e percebem o quanto suas vidas se tornaram diferentes, mas o sentimento profundo que outrora tiveram um pelo outro ainda está ali, e em meio a duas culturas, fuso horário e rotinas distintas, eles tentam manter um ao outro por perto.

Ao longo da vida, os dois se perdem e se encontram, com anos e anos de intervalo. As prioridades mudam, pessoas novas chegam e reverberam novas dinâmicas, e esse fio invisível que parece ligar os dois se alonga, e à medida que vamos acompanhando esse enredo, tantas reflexões vão surgindo, se aninhando e causando rebuliço dentro de nós. Até onde um fio pode chegar?

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Nora e Hae Sung se reencontram depois de anos sem contato um do outro. Foto: Reprodução/Past Lives/A24

Past Lives de forma sensível nos convida a pensar sobre a complexidade das relações. Os filmes de romance muitas vezes vendem a ideia de que o amor genuíno e avassalador entre duas pessoas, o tal destino, é algo óbvio, e portanto bem resolvido, mas é na vida real, em meio à pressão do cotidiano e a tantas interferências do mundo e dos outros, que esse amor nasce e se constrói, e portanto, às vezes se perde.

Nora e Hae Sung dançam a coreografia do amor achado e do amor perdido. O drama aborda o sentimento de pertencimento, do processo de ser estrangeira de si e de um lugar, e das muitas e muitas escolhas que precisamos fazer ao longo da vida. E sobre o destino, sempre pairando sobre nós, nos confundindo sobre o que fazer, que pessoas manter, do quê abrir mão.

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Nora se vê dividida entre o amor que conquistou e o amor que poderia ter tido. Foto: Reprodução/Past Lives/A24

A fotografia do filme e a trilha sonora calminha dão maior tom à trama e deixa o pacote ainda mais precioso, de dar vontade de segurar delicadamente entre os dedos.

Past Lives é uma forte aposta ao Oscar 2024 e tem conquistado tanto a crítica quanto os espectadores, e é nossa indicação para quem busca um filme forte, com mensagens profundas e um enredo que foge dos clichês de Hollywood.

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