Lideranças chamam atenção para a necessidade de políticas públicas que fortaleçam a Rede Brasileira de Bancos de Leite Humano
Em 2022, o Brasil coletou 234 mil litros de leite humano. Para 2023, o Ministério da Saúde pretende ampliar as doações a ponto de suprir, pelo menos, 60% da demanda nacional. Até agosto deste ano, os Bancos de Leite haviam coletado 175,1 mil litros de leite, pouco mais da metade do necessário para a meta de 245,7 mil litros de leite humano doado.
A Organização Mundial da Saúde (OMS) ja reconheceu a Rede Brasileira de Bancos de Leite Humano (rBLH) como referência mundial. Ainda assim, Danielle Aparecida da Silva, coordenadora do Banco de Leite Humano do Instituto Nacional de Saúde da Mulher, da Criança e do Adolescente Fernandes Figueira (IFF/Fiocruz), considera que as experiências pelas quais o mundo passou nos últimos anos, como a pandemia da covid-19, mostram que políticas de incentivo ao aleitamento materno precisam de investimentos constantes. Para ela, ainda há desafios a serem superados até que a oferta de doações consiga suprir a demandas das UTIs Neonatais de todo o país.
“Apesar do Brasil ter a maior rede de bancos de leite humano do mundo e de estarmos presentes em todos os estados do País, a gente ainda precisa de um compromisso maior da sociedade na divulgação da importância da doação de leite humano”, fala em entrevista ao PorTal.

Os Bancos de Leite Humanos (BLH) realizam um trabalho constante para manter os estoques de leite em quantidade suficiente para evitar escassez e as doações têm um comportamento sazonal.
As doações chegam à rede com maior intensidade em dois momentos do ano: no mês de maio, por causa do Dia Mundial da Doação de Leite Humano, comemorado no dia 19, e em agosto, mês da conscientização pela importância do aleitamento materno e da doação de leite humano. Por outro lado, feriados prolongados e datas festivas, como Natal e Ano Novo, resultam em baixas nos estoques.
As doações para os Bancos de Leite Humano
Mariana Nascimento, nutricionista do Banco de Leite Humano Maria Aparecida Pinheiro, do Hospital da Mulher, em Santo André (SP), banco referência na região do ABC Paulista, conta que ir atrás das doadoras nessas épocas do ano tem dado certo: “Nós vamos até ela [doadora], preenchemos o cadastro e fazemos a parte burocrática. Levamos enfermeiros para fazer coleta de exame de sangue com essa mãe e a entrega de kits para elas colocarem o leite. Posteriormente a gente pede só para fazer a retirada desse kit com tudo já preenchido e os vidros já com leite para doação”.
O modelo brasileiro de doação de leite humano coloca a mulher e o aleitamento materno como personagens principais da ação. A promoção da amamentação prolongada é importante para conscientização e melhoria dos resultados para os Bancos de Leite Humano no Brasil, segundo especialistas.
O Brasil tinha 227 BLH no ano passado, com maiores percentuais de coleta nas regiões sudeste e nordeste. O Monitoramento da Rede Brasileira de Bancos de Leite Humano acompanha os Bancos de Leite em todo o País desde os anos 2000.
De 2008 para 2009 foi o período em que o Brasil teve a maior expansão dos BLH na rede. Foram 13 no intervalo entre aqueles anos. Já de 2021 para 2022, foram apenas dois novos Bancos de Leite Humano em nosso país. Danielle Aparecida da Silva, coordenadora do IFF/Fiocruz, se preocupa com os gargalos que ainda precisam ser resolvidos por meio de políticas públicas para o setor.
“A gente precisaria de um programa de comunicação que conseguisse manter a promoção da doação de leite humano e a promoção do aleitamento materno o ano inteiro. Precisamos falar de uma licença maternidade de 6 meses [atualmente, a legislação brasileira garante afastamento de 4 meses] para todas as mulheres, para que elas consigam se dedicar à amamentação, se dedicar aos seus filhos e também se dedicar à doação de leite humano”, fala.
Não faltam exemplos que ilustrem a importância dessa rede no Brasil. Desde a notícia da gravidez até o momento em que Mirela nasceu, Cinthia Menezes se lembra de ter vivido dias tranquilos. Pelo menos até a 26ª semana da gestação, quando ela foi pega de surpresa e precisou antecipar o parto da primeira filha. Mãe de primeira viagem, a recepcionista ainda não consegue descrever a sensação que teve ao ver o rosto da filha pela primeira vez.
Cada gota de leite importa

Prematura, Mirela ainda não tinha forças nem para sugar o leite dos seios da mãe. Vieram então as primeiras preocupações. Com a filha tão pequena internada na UTI Neonatal precisando de oxigênio e sonda alimentar, como a mãe conseguiria amamentar? Cinthia, que sempre quis viver todos os momentos da maternidade, admite que ficou desesperada e pensou que talvez a filha não sobrevivesse.

A preocupação era válida. Para a ciência, o leite humano é um alimento funcional e indispensável para os primeiros anos de vida de um ser humano. No leite materno, estão nutrientes, proteínas e outras substâncias responsáveis pelo desenvolvimento saudável de um recém-nascido prematuro, como Mirela.
“O período mais importante para amamentação é do primeiro ao segundo mês de vida, pois vai passar todas as defesas e bactérias que a mãe entrou em contato. É um período fundamental para diminuir a asma e diminuir alergias”, explica o Dr. Antonio Fernandes, ginecologista e mastologista membro da Comissão de Aleitamento Materno da Febrasgo.
A reportagem conversou com outros especialistas que também lembram estudos que apontam o potencial que o aleitamento materno tem de reduzir o desenvolvimento de infecções, diabetes e doenças cardíacas na vida adulta.
Passado o ‘susto’, Cinthia lembra que encontrou na Rede de Bancos de Leite Humano um apoio que não havia recebido sequer durante os exames do pré-natal. A mãe encontrou uma rede de orientação que considera essencial para o momento em que ela e a filha estão passando.
“Eu vim no banco de leite e as meninas me orientaram a fazer massagem para poder tirar o leite. Que daqui [Banco de Leite do Hospital em que a filha da Cinthia está] sobe para ela na UTI. Como ela é muito prematura, o meu [leite] sai muito pouquinho então só o meu não é suficiente para ela, que também recebe o leite pasteurizado daqui”, explica.
Como a filha ainda não tinha capacidade pulmonar nem cardiovascular para realizar o movimento de sucção do seio materno, Cinthia aprendeu a realizar a extração mecânica desse leite. No começo, ela levava cerca de duas horas para tirar pouco mais de 3 ml de leite, mas não se deixou desanimar: “É gotinha em gotinha a gente conversa bastante com as meninas aqui e se ajuda”.
O processo de pasteurização é o que garante o preparo do leite doado aos bancos para o consumo dos recém-nascidos. Todo leite que chega aos BLH passa por esse processo de ‘preparo’. Durante a pasteurização é que os profissionais dos bancos fazem os testes de ‘controle de qualidade’ como análises olfativas e visuais, agitação, fervura e resfriamento, teste de PH, análise laboratorial e classificação do leite doado.



Para o Dr. Antonio Fernandes, da Febrasgo, conversa e orientação são fundamentais para uma amamentação consciente. O médico lembra que é normal que, aproximadamente, 10% das mulheres não produzam o volume de leite necessário para suprir as necessidades nutricionais de seus filhos.
O que falta, na opinião do especialista, é um preparo dessas mulheres durante as consultas e exames do pré-natal. Orientação que poderia evitar muita ansiedade por parte da mãe no momento da amamentação:
“São pequenas orientações que são fundamentais e geralmente a equipe do BLH oferece para essa mulher”.
Dr. Antonio Fernandes, ginecologista e mastologista membro da Comissão de Aleitamento Materno da Febrasgo
Cinthia é uma das mais de 150 mil mulheres que, só este ano, precisaram recorrer à Rede Brasileira de Bancos de Leite Humano para conseguir ajuda na hora de amamentar ou ter algum tipo de auxílio durante os primeiros meses de vida dos filhos. Com ajuda dos profissionais do banco, além de receber doação, ela também consegue doar um pouco do leite que produz e sabe muito bem a importância desse gesto.
“Salva uma vida, né? Você já pensou se eu não consigo produzir a quantidade que ela precisa e se não tivesse uma outra pessoa que doa. Como que vai suprir a necessidade do neném? Como a minha filha precisa, os outros também precisam”, reflete.
Resultados comprovados
Segundo a Organização Mundial da Saúde e da Unicef, cerca de 6 milhões de vidas são salvas por ano com a ampliação das taxas de amamentação pelo manos até o sexto mês de vida.

Os Bancos de Leite Humanos unem realidades diferentes. Como a de Cláudia Coelho, que tem três filhos; Maria Clara, 20, João Pedro, 14, e Carlos Alberto, hoje com 9 anos de idade, foi amamentado com leite materno até os seis.
Para Cláudia, o momento da amamentação sempre foi muito especial. A dona de casa não teve dificuldade alguma para amamentar qualquer um dos seus três filhos, muito pelo contrário. Ela teve problemas para ‘secar’ o leite quando decidiu parar de amamentar.
“Quando eu tive minha filha eu fiquei muito feliz porque eu tinha muito leite. Muito mesmo. Antes de amamentar ela de manhã eu tirava meio litro de leite. Aí depois eu dava banho nela e a amamentava. E sempre sobrou. Pra mim, era um prazer muito grande tanto amamentar ela, quanto tirar o leite para doar”, relembra.
Ordenhar e doar parte do leite que produzia sempre foi importante para Cláudia, que sabia que isso nunca prejudicaria seus filhos de forma alguma. O que incomodava a mãe eram as outras pessoas, que insistiam em apontar questões negativas sobre a doação. Alguns diziam que se ela continuasse tirando o leite para doação, seus seios ficariam flácidos. Comentários para os quais ela diz nunca ter dado atenção.
O importante para Cláudia era saber que estava ajudando outras crianças que precisam do leite que ela podia doar. Nesse momento, os Bancos de Leite uniram a vontade de ajudar com a necessidade das mães que, assim como Cintia, utilizam os serviços do sistema.
