A criação de insetos comestíveis tem crescido no Brasil, mas para um público seleto. Enquanto isso, quase 10% dos brasileiros estão em situação de insegurança alimentar
Apesar do aumento do consumo de produtos industrializados e adoçados artificialmente, especialistas em nutrição afirmam que o hábito alimentar do brasileiro ainda é culturalmente nutritivo e ‘saudável’. O famoso ‘arroz com feijão’, ou pelo menos um deles, caiu no gosto dos brasileiros e se tornou unanimidade na maioria das casas do País. Nutricionistas explicam que essa junção queridinha é nutritiva e saudável pois se complementa. O que não temos no arroz, temos no feijão ou na famosa ‘mistura’ que traz uma diversidade a mais para a tão rica gastronomia brasileira.
Uma culinária tão rica como a nossa não poderia deixar de ter diferenças também. Mas hoje não falaremos do tacacá, que é tão tradicional no norte do Brasil, ou do joelho de porco, que os descendentes de alemães que um dia moraram no sul mantém como tradição culinária na região. Vamos falar do consumo de insetos. Sim. Insetos.
Mesmo que algumas comunidades indígenas, quilombolas e ribeirinhas tenham pratos típicos que levam insetos no preparo, a entomofagia, nome dado à prática de se comer insetos, não é tão comum País afora. Para algumas pessoas é natural relacionar a entomofagia apenas a países asiáticos, por exemplo.
“Não é um hábito tão instituído no Brasil. Ninguém sai de casa com a lista de supermercado e coloca 1 kg de besouro, 0,5 kg de minhoca e 100 gramas de formiga”, pontua Fabiana Poltronieri, nutricionista, professora e consultora da Associação Brasileira de Nutrição (ASBRAN).
Ainda assim, a criação de insetos voltada à entomofagia tem crescido no Brasil, a ponto de, em 2013, então entusiastas do setor se juntaram para fundar o que hoje é a Associação Brasileira dos Criadores de Insetos (ASBRACI). A entidade reúne biofábricas, pesquisadores, entusiastas e representantes dos órgãos oficiais, como o Ministério da Agricultura e Pecuária e a Anvisa.
Enquanto representantes dos criadores de insetos no Brasil, Casé Oliveira, presidente da ASBRACI, diz que eles articulam desde a criação da Associação com órgãos oficiais para que eles estejam presentes nos eventos que os criadores organizam, como a Insetec, e assim aprendam mais sobre o setor.
“Hoje, a grande maioria dos fiscais já entendem do assunto. A gente construiu isso junto com o Ministério da Agricultura e Pecuária. A Associação se orgulha de trilhar esse caminho e fazer parte dessa história de instrução.”
Casé Oliveira, presidente da ASBRACI, em entrevista ao PorTal.
Casé ainda conta que nasceu e foi criado em regiões que tinham o costume de consumir alguns pratos com insetos, como as formigas tanajuras e algumas espécies de grilo e, por isso, sempre achou que a prática era comum. Mas boa parte dos brasileiros têm um certo preconceito em relação à alimentação com base em insetos.



“Neofobia é uma coisa que o ser humano tem e fica com medo de comer alguma coisa nova. No começo da nossa evolução era importante, para não comer coisa estragada ou venenosa, mas hoje, muita gente tem neofobia em relação à entomofagia”, fala.
Barreira cultural da entomofagia e o mercado
Christiano França é professor e pesquisador da área de marketing e coordenador do Laboratório de Agronegócio. Segundo o professor, há uma grande barreira cultural entre entomofagia e mercado, o que, em sua opinião, reflete a falta de conhecimento das pessoas em geral sobre o assunto. Uma vez que, numa pesquisa de sua orientação, pode-se perceber que pessoas com maiores níveis de formação acadêmica já conheciam a prática e estavam 96% mais dispostas a experimentar pães, bolos ou bolacha produzidos com farinha de grilo, por exemplo.
Mesmo aqueles dispostos a experimentarem a proteína, disseram que o fariam com mais facilidade se ela estivesse ‘escondida’ no produto a ser consumido. “Na forma desagregada, ou seja, na forma de farinha [o inseto] é melhor aceito. A pessoa pode até ter menor neofobia na forma de farinha porque ela não está [o inseto]”, explica França.
Casé Oliveira, que além de ser presidente da ASBRACI também é gastrólogo, conta que já participou de várias feiras gastronômicas para as quais produziu hambúrgueres com insetos que fizeram com que longas filas se formassem com pessoas curiosas para conhecer o prato. Ele diz que não esperava que a curiosidade das pessoas fosse capaz de causar tamanho interesse pela entomofagia.
“Eu vou trabalhar com um prato mais bonito, uma coisa diferente. Se eu fizer um espetinho e colocar o espetinho assado para a pessoa comer, ela não vai comer. Agora, se você traz isso na comida mais ‘bonita’, eles vão comer. Um peixe cru, simplesmente morto, as pessoas não vão comer. Mas se você trabalha ele como a gastronomia oriental faz, aí as pessoas vão querer. Quando a gente vai fazer uma experiência gastronômica assim [como comer algo inusitado], a gente começa de pouquinho”, explica durante entrevista ao PorTal.

Esses especialistas reconhecem que os produtos ‘insect-based’ não devem entrar no mercado tão acessível. Como todo o produto novo no mercado, eles também têm um valor mais elevado. Mas esse pode ser um caminho para que o mercado se consolide no Brasil. “O produto vai entrar por pessoas com maior escolaridade e renda, mas a partir do momento em que você começa a ver mais gente consumindo, isso talvez queria um desejo de você também experimentar.”
Mas no fim das contas, entomofagia faz bem?
O mercado de proteínas alternativas têm demonstrado potencial de ganho de público já há algum tempo. Segundo a empresa de pesquisa de mercado Euromonitor, o crescimento desse segmento chega perto de 40% ao ano, seja por causa de dietas restritivas, como o vegetarianismo, veganismo ou de dietas flexíveis, como o flexitarianismo.
Recomenda-se que, a depender da fase da vida e condição clínica de cada pessoa, um ser humano deve consumir, em média, 1g de proteína para cada 1 kg de peso corporal. De acordo com a ONU, a presença de proteínas em alimentos produzidos à base de gafanhotos e grilos, por exemplo, podem chegar a até 69% do total.
Nesse sentido, a entomofagia pode ser vista como promissora. O consumo de insetos pode movimentar cerca de US$ 8 bilhões até 2030. Seriam cerca de 730 mil toneladas de insetos consumidos até lá. Pode parecer pouco quando comparado ao quanto o mercado de proteínas animal movimenta anualmente, mas, de acordo com Christiano França, o potencial desse mercado pode ser oportunidade para as pessoas que querem empreender no ramo da alimentação.
Quando comparados às demais proteínas no mercado, França destaca que a produção de insetos é mais barata. Demanda-se menor área de produção e produz-se mais: “As pessoas estão aprendendo numa área de inovação. Muita gente pensa que precisam criar tecnologias mirabolantes, mas não. Coisas novas podem ser simples. Se você se alimentar de proteína de inseto é uma coisa nova, isso é inovação.”
Apesar de promissor, algumas pessoas têm ressalvas sobre o assunto. A doutora Fabiana Poltronieri acredita que para falar de entomofagia, antes se faz necessário discutir sistemas de produção de alimentos como um todo, incluindo distribuição de renda e impactos climáticos da produção de alimentos no Brasil.
“Nós precisamos das proteínas dos insetos? Será que o manejo das terras ou cuidados adequados da produção não manteria a forma com que nós pudéssemos alimentar de maneira adequada? A produção da farinha de inseto é feita por uma população ribeirinha [que já tem como tradição o manejo de insetos para consumo humano]? É a população do pequeno vilarejo ou é uma indústria? Como vai ser a concentração de renda? Como vão se dar as relações de trabalho e produção de alimentos?”, questiona.
A nutricionista diz não ter dúvidas que o Brasil tem tecnologia suficiente para produzir alimentos seguros. No caso, que os alimentos à base de insetos sejam próprios para consumo, sem que nenhuma doença seja transmitida com a prática, por exemplo. Mas, ao mesmo tempo, ela lembra que a insegurança alimentar no Brasil aumentou nos últimos anos. O País voltou ao Mapa da Fome, de onde havia saído em 2013.
Dados da ONU reforçam a preocupação da especialista. Um estudo realizado em 2021 e divulgado recentemente pela Organização das Nações Unidas para Alimentação e Agricultura (FAO) mostra que 21,1 milhões de pessoas estão em situação de insegurança alimentar no Brasil — isso é equivalente a 9,9% da população.
“Nós temos no Brasil uma biodiversidade e disponibilidade de alimentos de origem animal e vegetal incrível. O que nós não temos é a distribuição de renda e alimento. Parte da população está comendo enquanto outra não está”, diz.
A especialista destaca o compromisso de sua profissão com o Direito Humano à Alimentação Adequada. Por isso, lembra que é necessário criar condições para que todos os brasileiros possam, antes de mais nada, se alimentar de maneira adequada e digna. Com acesso aos alimentos que todas as comunidades estão acostumadas para poderem reproduzir o que a professora chamou de ‘preparo ancestral’, seja ele à base de farinha de içá ou macaxeira.
